Rendimento e segurança dos investimentos em renda fixa

Os investimentos tradicionais podem ser classificados como os mais democráticos do mercado financeiro, representados pelas aplicações financeiras em títulos de renda fixa e de renda variável de fácil acesso.

Propomos uma pequena escala dos investimentos tradicionais na qual o de menor risco corresponda à aplicação em título público LFT (Tesouro Selic). Já o de maior risco na renda fixa é representado pela NTN-B 2050 (Nota do Tesouro Nacional com vencimento em 2050) e, na renda variável, pelo Ibovespa, o índice de ações mais conhecido do país.

A tabela mostra a rentabilidade nominal acumulada entre janeiro de 2016 e fevereiro de 2018, totalizando 25 meses, de uma aplicação em LFT, em NTN-B 2050 e em Ibovespa. Para termos noção dos ganhos reais, incluímos, na última linha, inflação acumulada pelo IPCA no período.

Os números da tabela ao lado impressionam: a rentabilidade de uma aplicação em LFT foi de 25%, equivalente a 7% ao ano acima do IPCA do período, um ganho real excepcional em relação ao perfil conservador que representa. Não se compara, contudo, ao das aplicações com maior risco.

Rentabilidade

A rentabilidade de 67% da NTN-B com vencimento em 2050 equivaleu a um ganho real de 23% ao ano – é quase inacreditável que um título tradicional de renda fixa tenha apresentado tamanho retorno.

Sob o ponto de vista das expectativas, a arrancada do Ibovespa pode ser considerada insuperável, sua variação de 111% significou que o capital ali investido mais do que dobrou. Ao longo desses 25 meses, o índice bateu recordes sucessivos de pontuação, causando perplexidade até mesmo em analistas experientes.

Retrocedendo ao início de 2016, pudemos constatar que a maioria das análises de conjuntura era cautelosa e recomendava uma postura conservadora para os investidores. Se a neutralidade foi acertada porque as aplicações em LFT renderam muito bem, como mostra a tabela, pode-se argumentar, por outro lado, que o potencial de valorização dos ativos mais arriscados foi subestimado e o movimento iniciado naquele mês não foi plenamente antecipado.

Não há como negar que o extraordinário desempenho dos investimentos tradicionais, a despeito da continuidade dos grandes desafios internos, é um fenômeno instigante. Não tem sido trivial estabelecer uma relação entre o otimismo dos mercados e os temas nacionais importantes, tais como o endividamento público, reformas estruturais, incerteza energética, corrupção e segurança.

Não é fácil compreender a aparente contradição entre o risco soberano ter caído 70% nesses 25 meses, saindo de 500 para 150 pontos-base quando medido pelo CDS (Credit Default Swap), e o país ter sido rebaixado pelas agências internacionais de classificação de risco no mesmo período.

Mesmo as projeções econômicas positivas de curto prazo, que reúnem crescimento importante e baixa inflação, podem ser questionadas quanto à efetiva influência sobre o comportamento dos ativos financeiros. Isso porque é factível a hipótese de que a correlação entre a conjuntura interna e a alta do Ibovespa, por exemplo, se deva, de fato, a uma terceira variável – nesse caso, ao cenário externo – que seria a principal causa tanto da recuperação econômica quanto da expressiva subida de preço das ações brasileiras.

O sucesso do passado não é nenhuma garantia para o futuro. Essa regra se aplica inteiramente aqui. Os números excepcionais de rentabilidade apresentados na tabela não significam que serão repetidos, mas a experiência desses últimos meses pode ser útil e nos ajudar a compreender como a lógica do mercado financeiro se descolou da realidade econômica do país.

Por mais surpreendente que possa parecer, a influência da conjuntura interna tem sido muito limitada e as variáveis locais têm se mostrado pouco relevantes para o comportamento dos mercados, ao passo que o cenário externo tem comandado o movimento e proporcionado uma incrível valorização dos ativos financeiros nos países emergentes em geral e no Brasil, em particular, ampliando as fronteiras da gestão profissional de investimentos, cujo foco decididamente deixou de ser local para ser globalizado.

Devemos considerar, por fim, que o atual ciclo de bonança global não tem duração ilimitada e, assim como tem ajudado recentemente, a sua indesejável reversão sem data marcada terá efeito oposto na rentabilidade dos investimentos tradicionais – que estejamos cientes disso.

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